Fundação Amália

Amália

Infância e Juventude

  • 1920: Nasce a 23 de julho, em Lisboa.

  • 1922–1934: Vive com os avós maternos no Fundão; trabalha como bordadeira e operária.

  • 1935: Participa em marchas populares e começa a vender fruta com a família.

Início da Carreira

  • 1939: Estreia-se como fadista profissional no Retiro da Severa.

  • 1940: Torna-se a fadista mais bem paga do país; estreia-se no teatro com a revista “Ora vai tu”.

Reconhecimento Internacional

  • 1943–1945: Atua em Madrid e no Brasil, onde grava os primeiros discos.

  • 1950–1952: Participa em espetáculos patrocinados pelo Plano Marshall; atua em Nova Iorque e grava nos estúdios Abbey Road, em Londres.

Evolução Artística

  • 1962: Inicia colaboração com Alain Oulman, marcando uma nova fase artística.

  • 1970: Lança o álbum “Com que voz”, considerado uma obra-prima.

Reconhecimentos e Homenagens

  • 1980: Recebe a Ordem do Infante D. Henrique, grau de Oficial.

  • 1990: Comemora 50 anos de carreira no Coliseu dos Recreios; recebe a Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada.

  • 1991: Condecorada com a Legião de Honra, grau de Cavaleiro, pelo Presidente francês François Mitterrand.

Últimos Anos e Legado

  • 1999: Falece a 6 de outubro, em Lisboa; é decretado luto nacional.

  • 2001: Transladada para o Panteão Nacional, sendo a primeira mulher portuguesa a receber tal honra.

  • 2011: O Fado é declarado Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, com especial agradecimento ao trabalho de Amália.

Amália no Cinema e no Teatro

Amália no Teatro

Amália Rodrigues iniciou a sua carreira no teatro em 1940, no Teatro Maria Vitória, com a revista Ora Vai Tu!. Entre 1940 e 1947, participou em várias revistas e operetas, preferindo o teatro às casas de fado devido à sua timidez e ao contacto direto com o público.

Em 1942, conheceu o maestro Frederico Valério, que compôs para ela o “Fado Ciúme”, um dos seus primeiros grandes sucessos.

Em 1944, apresentou-se no Casino Copacabana, no Brasil, com o espetáculo Numa Aldeia Portuguesa, criado especialmente para ela. O sucesso foi tão grande que regressou ao Brasil em 1945, ficando dez meses com a Companhia de Revistas Amália Rodrigues, onde apresentou Boa Nova e Rosa Cantadeira.

Em 1955, foi convidada por Vasco Morgado a protagonizar a peça A Severa. Apesar de alguma hesitação inicial, aceitou o desafio e adaptou a personagem ao seu estilo, revelando-se também no teatro declamado.


Amália no Cinema

A estreia de Amália no cinema deu-se em 1947 com o filme Capas Negras, de Armando de Miranda, que foi um enorme sucesso de bilheteira, permanecendo em cartaz durante 22 semanas.

Ainda em 1947, protagonizou Fado, História de uma Cantadeira, realizado por Perdigão Queiroga, também com grande sucesso.

Participou ainda em filmes como Sangue Toureiro (1958), de Augusto Fraga, e As Ilhas Encantadas (1965), de Carlos Vilardebó, este último baseado em contos de Herman Melville. Em 1991, teve uma pequena participação no filme Até ao Fim do Mundo, de Wim Wenders.

A sua vida e carreira também foram retratadas em documentários como Amália – Uma Estranha Forma de Vida e A Arte de Amália, que celebram o seu legado artístico.

Amália e Os Poetas

Inovação no Fado através da Poesia

Amália Rodrigues revolucionou o fado ao interpretar poemas de grandes nomes da literatura portuguesa, elevando o gênero musical a novos patamares. Em 1965, lançou o disco Amália Canta Camões, que incluía poemas como “Erros Meus” e “Dura Memória”. Esta iniciativa gerou controvérsia, com opiniões divididas sobre a adequação de cantar Camões em fado. Amália defendeu sua escolha, afirmando não ver diferença entre o fado tradicional e o que ela interpretava, destacando sua autenticidade como artista.

Colaboração com Alain Oulman e Poetas Contemporâneos

A parceria com o compositor Alain Oulman foi fundamental na modernização do fado. O álbum Busto (1962) marcou essa transformação, apresentando composições de poetas como Luís Macedo (“Asas Fechadas”), David Mourão-Ferreira (“Maria Lisboa”, “Abandono”), Pedro Homem de Mello (“Povo que Lavas no Rio”) e da própria Amália (“Estranha Forma de Vida”). O uso do piano em vez dos tradicionais instrumentos de fado e a escolha de poemas sofisticados evidenciaram essa nova abordagem.

Tertúlias Poéticas e o Disco Amália/Vinicius

As tertúlias na casa de Amália, na Rua de São Bento, reuniam poetas e músicos em serões de poesia e música. Esses encontros foram imortalizados no disco Amália/Vinicius (1970), que inclui leituras de Natália Correia (“Defesa do Poeta”), José Carlos Ary dos Santos (“Retrato de Amália”) e performances de Vinicius de Moraes (“Saudades do Brasil em Portugal”). O álbum também conta com a participação de David Mourão-Ferreira, o guitarrista Fontes Rocha e o violista Pedro Leal.

Amália como Poeta

Apesar de ter apenas o ensino primário, Amália revelou-se uma poeta de grande sensibilidade. Na década de 1980, lançou dois discos com poemas de sua autoria: Gostava de Ser Quem Era (1980) e Lágrima (1983), com composições de Fontes Rocha e Carlos Gonçalves. Seus poemas abordam temas como a saudade, a dor e a alegria, utilizando uma linguagem simples, mas carregada de emoção. O livro Versos, publicado em 1997, reúne parte de sua produção poética, incluindo poemas como “A Onda” e trava-línguas como “335 Gafanhotos”.

Legado Literário

A relação de Amália com a poesia é também explorada em obras como O Fado na Tua Voz – Amália e os Poetas (2014), de Vítor Pavão dos Santos, que compila os poetas e poemas interpretados por ela. Além disso, a Fundação Amália Rodrigues promove eventos e conversas sobre a influência dos poetas na carreira da fadista, como o ciclo “A Poesia Subiu ao Povo”, que contou com a participação de Manuel Alegre e Paula Morão.

Cantora Do Mundo

Ninguém diria que num bairro pobre da Lisboa Antiga nasceria a
cantora portuguesa mais conhecida de todos os tempos. A voz que levava o choro, a alma e a saudade de um povo percorreu os 5 continentes e mais de 68 países, tornando-se na primeira artista portuguesa verdadeiramente internacional.

  • Início da carreira internacional: Aos 23 anos, Amália realizou sua primeira atuação internacional na Espanha. Posteriormente, apresentou-se no Brasil, México e participou das celebrações do Plano Marshall em diversas cidades europeias. 
  • Reconhecimento mundial: Na década de 1960, foi aclamada pela revista Variety como uma das cinco melhores vozes do mundo. Apresentou-se em locais emblemáticos como o Olympia de Paris, Carnegie Hall, Lincoln Center e Hollywood Bowl. 
  • Extensa digressão internacional: Em 1973, realizou mais de 80 concertos apenas na Itália. Sua carreira incluiu apresentações em países como Rússia, Japão, Romênia, Países Baixos, Grécia, Turquia, Líbano, Austrália, Tunísia e Venezuela. 
  • Legado e autenticidade: Amália acreditava que sua autenticidade foi fundamental para seu sucesso internacional. Ela afirmou: “Fui para fora com uma guitarra e uma viola, e fiz uma carreira internacional. Não foi o meu português, nem a minha falta de espetáculo. Foi a minha autenticidade que venceu.” 
  • Dedicação ao público: Com mais de 50 anos dedicados à música, Amália valorizava profundamente o carinho do público, afirmando que o amor das pessoas era o que a sustentava. 

Discografia

Eis uns dos maiores exitos de Amália:

  • Ai Mouraria – Uma das suas primeiras gravações, lançada em 1945 no Brasil. É um clássico do fado tradicional lisboeta.

  • Tive um Coração, Perdi-o – Também gravada em 1945, é uma das primeiras canções que deram notoriedade à jovem Amália no Brasil.

  • Foi Deus – Gravada pela primeira vez em 1952. Um dos fados mais emblemáticos, que associa o fado a um dom divino.

  • Uma Casa Portuguesa – Lançada em 1953 como single. Esta canção tornou-se um verdadeiro hino da portugalidade e é uma das mais internacionalmente conhecidas.

  • Nem às Paredes Confesso – Lançada em 1953. Fado de grande sucesso e muito popular na época.

  • Barco Negro – Gravada em 1955. É a versão portuguesa do tema brasileiro Mãe Preta, com letra adaptada. Uma das suas interpretações mais dramáticas.

  • Canção do Mar – Gravada originalmente em 1955 com o nome Solidão, para a banda sonora do filme “Os Amantes do Tejo”. Tornou-se famosa internacionalmente nos anos 1990 com o nome atual.

  • Estranha Forma de Vida – Lançada em 1961, esta canção apareceu num LP da editora Orfeu. É considerada um dos fados mais íntimos e profundos de Amália.

  • Abandono – Lançada em 1962 no álbum Busto, com poesia de David Mourão-Ferreira e música de Alain Oulman.

  • Maria Lisboa – Lançada em 1963, também no álbum Amália Canta Poesia de Pedro Homem de Mello. Um retrato lírico de uma mulher de Lisboa.

  • Povo que Lavas no Rio – Lançada em 1963, no álbum Amália Canta Poesia de Pedro Homem de Mello. É um fado marcante e com forte carga social.

  • Fado Português – Lançada em 1965, no álbum com o mesmo nome. É um fado de afirmação identitária e nacional.

  • Com que Voz – Lançada em 1970, no álbum Com Que Voz. Inclui poemas de Camões musicados por Alain Oulman, marcando o auge do chamado “fado culto”.

  • Gaivota – Lançada em 1970, no álbum Com Que Voz. Com poema de Alexandre O’Neill, é um dos fados mais melancólicos do repertório de Amália.

  • Lágrima – Lançada em 1983, no álbum Lágrima. A letra é da própria Amália e tornou-se uma das suas canções mais sentidas e conhecidas.